Ifa

Buscando a Excelência nas Atividades e Responsabilidades

Em quaisquer setores de atividades devemos estar sempre buscando a melhoria e excelência dos resultados.

Aquele que quer crescer e se desenvolver tem o dever de avaliar os seus empreendimentos, ações e comportamentos com a neutralidade de saber observar e identificar os aspectos das necessárias melhorias tanto no seu individual quanto na sua participação no coletivo. O melhor desempenho do coletivo nasce da melhor qualidade do individual, ou, pelo menos, desse empenho.

Não podemos realizar essa avaliação com uma leitura de crítica depreciativa ou de ficar apontando para esse ou aquele as falhas como forma de caçar culpados. Temos a necessidade da identificação do que se faz preciso e trabalhar as peças engrenagens desencaixadas e ajustá-las para o funcionamento eficiente e eficaz dos propósitos e objetivos definidos e planejados, o que é normal em qualquer processo de crescimento individual e coletivo, sobretudo, em uma casa religiosa, aplicando uma liderança flexível e racional, dentro do limite do aceitável em prol de uma coletividade.

Evidente que podem existir pessoas de caráter denegrido, possíveis de ser consideradas “laranjas podres” e sujeitas a causar desarmonias e “contaminar todo um pomar”, pois, com suas atitudes, subvertem propósitos previamente estabelecidos e coletivamente aceitos, desarmonizando todo um contexto de atividades combinadas, que lutam contra a reabilitação pessoal e rejeitam a organização do ambiente, tumultuando toda uma ordem. Mas, para esses, os consensos devem existir para tratamentos diferenciados, que podem levar, até mesmo, em caso extremo, ao afastamento dessas pessoas por não aceitarem em momento algum a disciplina e a hierarquia em suas frequências.

Sou sacerdote Babalawo que respeita a cultura iniciática e hierárquica. Em prol do exercício sacerdotal, muito estudei e me dediquei para conseguir ter o entendimento dos conceitos e valores de Ifá que levassem poder me ajudar, aos meus familiares, afilhados, amigos…

Tive momentos de quase ser um estranho em minha própria família, visto o tanto que me dediquei aos estudos religiosos de Ifá, o que, por vezes, fez transparecer para os meus familiares uma quase ausência da minha própria casa, embora estivesse sempre presente fisicamente.

Momentos não muito fáceis de viver, mas eram momentos de um necessário investimento no meu pessoal, tanto no tempo e aplicação quanto nos valores financeiros para esse fim.

Esses valores financeiros foram desviados dos nossos recursos de orçamento doméstico, o que causou impacto no nosso cotidiano familiar de vida. Porém, esse era o momento do sacrifício real, e graças aos bons filhos e esposa que me foram concedidos pela graça divina de Olodumare, tive a compreensão dos mesmos para prosseguir e continuar investindo no conhecimento espiritual, sobretudo, o de Ifa.

Não parei essa busca e continuo investindo no saber, tento crescer e aprender a cada dia, e não me nego a repassar o que estudei e estudo, pois é assim que fazemos perpetuar o que aprendemos, e a cultura não “morre”.

Portanto, esforço, empenho e sacrifício foram os meus lemas, e tanto me acostumei com isso que não consigo mudar ou relaxar. Mas, essa é uma questão pessoal de opção e escolha de viver.

Não exijo isso de ninguém, e sempre me coloco apenas como um orientador, ferramenta sacerdotal de Ifa.  Com o exposto sobre o meu pessoal tive a intenção de exemplificar, pontuando aspectos meus de sacrifício de vida pessoal e familiar e o que  passamos na nossa casa para o objetivo do avanço que conseguimos tirando o foco do materialismo para a dedicação ao espiritual, propondo dar o caráter motivacional para aqueles que acreditam nas questões evolucionais através da espiritualização.

Percebi que investir no espiritual ajudou, e muito, no progresso do material. Fórmula para o alinhamento. E isso demanda esforço, sacrifício, dedicação, disciplina, perseverança e constância em crer e praticar a fé.

Nada fácil de construir, mas bem prazeroso de praticar (“as raízes das árvores de Ifa são amargas, mas seus frutos são doces em degustação”).

Podemos perceber que com o histórico das nossas atividades, embora possamos constatar crescentes resultados, precisamos movimentar cada vez mais esforços de disciplinas específicas e realizar operações com ardores paralelos aos movimentos ritualísticos para estudarmos mais, treinarmos mais e aprimorarmos as práticas em suas performances nas doutrinas.

Podemos, nesse exercício, constatar, à vista desse caminho, que o aperfeiçoamento deve ser constante para o atingimento dos variados crescentes objetivos tencionados.

As adequações e ajustes se fazem necessárias no âmbito do individual e do coletivo.

Para os momentos das práticas nos variados setores de vida, não apropriados para essas adaptações e de convencionar adequações, já temos que operar com o preparo devido anteriormente adquirido. Esta é uma necessidade que demanda concentração e foco em que não devem existir espaços para eventuais falhas ou espetáculos de vaidades causadoras de desvios das metas e propósitos das atividades definidas, que possam afetar a positividade dos resultados.

Essa leitura deve ser aplicada de maneira a poder identificar desacertos ocasionais ou formas comportamentais que venham espelhar retrocessos nos avanços dos aprimoramentos que afetem a confiança na veracidade do empreendimento. 

Dentro dessa consciência de verdade prática, podemos, assim, nos fazer acreditar e evoluir, sem ilusões ou fantasias criadas com a finalidade de oferecer espetáculos e não a realidade de praticar um culto religioso. Às vezes se faz útil puxarmos a linha da pipa e a colocarmos mais próxima do plano terra, ou seja, termos a conscientização do que podemos ser e do que realmente somos no limite dos nossos potenciais, conhecimentos, intenções e verdades. Para tanto, precisamos estar sempre estudando, aprimorando, treinando e praticando com denodo sem invenções e levianas vaidades fantasiosas.

Ninguém é melhor ou pior do que o outro, e precisamos sempre estar realistas em busca das melhorias sem imitar ou copiar modelos que possamos pensar serem os de sucessos dos outros.

Assim crescemos. Potenciais devem ser explorados, dúvidas dirimidas e falhas corrigidas.

Nada além do caminho natural para o crescimento e autenticação de novos valores despidos dos paradigmas e velhos conceitos que tanto emperram e causam entraves no processo da evolução da consciência.

Um copo cheio lotado com água antiga e estagnada (valores velhos), não permite espaço para acomodar uma única gota de água nova (valores atualizados, melhorados e transformados).

Criando uma forma ilustrativa com o paralelo relacionado aos processos de orientação educacional e cultural na formação das pessoas, e antecipando minhas desculpas por me expressar dentro da estrutura e fases de um passado educacional que passei, e não o modernizando ao contexto atual, cito:

– uma criança, no jardim de infância, pode se destacar em sua turminha com pequenos e divertidos trabalhinhos, se tornando o centro das atenções e orgulho dos seus pais – “pequeno grande aluno da turma”. Ela é tratada com mimo pelos seus progenitores que, em face das circunstâncias desse provável destaque, permitem que a criança faça o que bem entenda e do jeito que queira, não aplicando desde o inicio do processo educacional as devidas orientações e correções.

Ao passar para a classe primária, vai conviver com outra realidade, porquanto terá contato com outros alunos, novas informações e necessidades de aprendizados. Nesse ponto, começa a perceber que já não se destaca tanto assim, e tem “competidores” alunos de outro nível e se choca ao constatar que não consegue ser mais a primeira da classe.

Nas fases seguintes das etapas graduais de estudos o choque ainda é maior, pois além das necessidades normais de empenho em seus cursos, constata que os professores são mais exigentes e não tratam a pessoa com os carinhos e protecionismos dados a uma criança. Triste verdade para essa pessoa, que além de não conseguir mais ser o primeiro da turma, ainda tem dificuldades para passar de ano. Foi mal criada e orientada e agora os pais não podem mais dar tanta atenção e assumir por ela. Está sozinha e tem que se virar, mas consegue passar e completar o ciclo secundário aos trancos e barrancos.

Essa pessoa, então, inicia a etapa da faculdade. Começa a frequentar, não consegue acompanhar o nível de exigência do ensino, se desestimula, não estuda, culpa os pais e se decepciona consigo.

Nessa situação, alguns desistem, outros ficam perambulando buscando aqui e lá uma instituição de ensino de nível inferior e pensam: “assim posso voltar a me equiparar aos outros alunos e voltar a me destacar”.

Triste ilusão.

Descer o nível é a solução?

Desistir, fugir e não enfrentar as dificuldades resolve alguma coisa?

Não percebo que sejam essas as saídas para as dificuldades.

Compreendo que alguém assim se anula e se limita em sua própria limitação.

A solução, ao meu juízo, estava em lá atrás ter sido mais bem preparada pelos pais e professores (dirigentes, sacerdotes…) e ter se empenhado mais, visto que o fracasso do presente está na falta da orientação, estruturação e empenho no passado. E nessas circunstâncias, o que dizer sobre o futuro?

Soluções sempre existem e existirão, mas às vezes demandam a reorganização do pessoal e reconstrução de valores, com novas percepções e aceitações e, ocasionalmente, os aprendizados ocorrem com a dor.

Ninguém, necessariamente, precisa passar por isso. Portanto, as pessoas devem se reunir mais e estabelecer parâmetros de estudos e práticas, criar mecanismos e condições de treinamentos e aprendizados, aprimorar performances e firmar empenhos. Ter também mais aceitação e consciência dos potenciais e colocá-los em exercício, compreendendo e ajustando seus limites.

Precisamos entender as nossas espiritualidades, propósitos e objetivos de destinos.

Temos que estar sempre abertos para críticas, conversas, sugestões e saber trocar.

Enfim, ter força de vontade e humildade para evoluir e não estacionar ou se afastar por achar difícil ou incapaz. Tudo é mais fácil com a informação, entendimento, aceitação, estudo, treinamento e prática.

Sabemos que apenas estudar para passar de ano não agrega conhecimento, e às vezes falha e reprova.

Querer estudar e aprender na hora da prova (momento da prática) é pior ainda e pouco oferece como resultado.

Creio que a solução é “estudar antes e fazer uma prova com conhecimento e consciência” (prática racional entendida).

Temos, por filosofia da nossa Casa de Ifa, aceitarmos e entendermos melhor as espiritualidades pessoais e de culto. Precisamos, mormente, corrigir aspectos de desencaixes e trabalhar as doutrinas evolutivas (pois, para todos, as oportunidades de crescimento são permitidas pelo Divino). Tentemos entender que, como diz Ifa no odu Ofun-di, “no pântano também nascem e crescem flores”. No odu Ogbe-di Orunmila diz que o saber está dividido, e o que pensamos que muito sabemos é apenas um grãozinho no areal do que não sabemos. Portanto, podemos aprender também com o astral e buscarmos a evolução. Por ouro lado, também podemos aprender com alguém o qual supostamente possamos considerar inferior, pois a troca sempre existe.  Se há um “caído” não significa, em definitiva conclusão, que ele não tenha conhecimento que possa passar, mas sim, que não soube usar devidamente ou com correção o conhecimento, e a experiência passada por um “caído” em busca da evolução mostra um modelo que serve, pelo menos, de alerta para outros.

“A alma do homem é eterna, a do homem justo eterna e divina” (Sócrates). Sejamos justos conosco, com os outros, com as nossas crenças e práticas, e acima de tudo, justos nas verdades as quais podemos “achar” como absolutas, visto que, quando melhor observadas, entenderemos que não passam de relativas apenas à nossa individual forma de pensar.

Por vezes, vemos pessoas que querem porque querem trabalhar com o espiritual, aprender Ifa, manifestar espiritualidades, e quando isso começa a acontecer passam a agir de uma forma totalmente sem sentido com o inicial dos seus propósitos, pois com o tempo, começam a se entediar com as atividades do espiritual, seus compromissos, e acham que estão assumindo muitas cargas e obrigações, deixando de “viver a vida”, e abandonam suas responsabilidades adquiridas.

Ora, quem não tem responsabilidade com os seus compromissos do espiritual não deve pôr o pé na “África” (em um templo). Isso não é brincadeira, não é um simples movimento de diversão para aplicar os valores conceituais e comparecer às práticas somente quando desejar ou possa estar disponível. A sensatez e seriedade têm que existir e fazer parte dos deveres e compromissos assumidos para o próprio espiritual, não somente para os “direitos” que alguns possam expressar que possuem.

Determinadas pessoas colocam culpa na “falta de tempo” para justificar suas atitudes descompromissadas, mas essa é uma forma muito antiga e já fora de moda em criar justificativa, e, em uma velha canção, Geraldo Vandré derrubou esse ignóbil argumento proferindo a seguinte frase: “quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.

Esses são os infelizes “agiotas” da fé, ou seja, “eu só faço se fizerem por mim antes”, ou “só vou poder fazer, me doar e frequentar quando estiver com a minha vida material equilibrada”. Pobres seres de espíritos expiatórios que não compreendem que Ifa, orishas, ancestrais e guias estão para nos direcionar e auxiliar a passar pelas necessidades que nós mesmos criamos, e não resolvê-las, pois a solução sempre está dentro de nós. Todavia, os ceguetas da vida não conseguem vê-las e sempre terceirizam culpas colocando-as nos outros e nas circunstâncias, visto que não conseguem enxergar ou admitir os seus próprios erros.

A auto vitimização nada acrescenta para a pessoa, pois com isso ela apenas busca desviar as opiniões dos outros se fazendo passar por perseguida pelas dificuldades da vida, se boicotando e tentando anular objeção a qual não consegue contra-argumentar, como forma de fuga às próprias limitações e faltas de empenhos em produzir.

Temos em nossa Casa ferramentas grandiosas para que as pessoas não venham cair nessas armadilhas que elas mesmas criam e acabam entrando, que são as ferramentas do conhecimento das suas próprias essências com os odus Ifa, os quais nos auxiliam a organizar os sentimentos equilibrando as emoções, e nos liberam desses pesares do boicote cunhados por escolhas próprias ou pela opção em aceitar as dominações de entorno.

Devemos sempre investir em nós mesmos, nos nossos conhecimentos e sabedorias aumentando as nossas capacidades, pois os valores internos nas suas dinâmicas das transformações e melhorados em capacidade não deixam espaços para as inseguranças e insucessos.

Sejamos maiores, crescidos, maduros, firmes, seguros, crentes e sábios, pois assim sempre teremos melhores performances e resultados, e vida que segue.

Iboru iboya iboshishe

Wladimir Bittencourt – Babalawo de Orunmila Otura Tiyu

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