Pontos de vista da ética nas práticas religiosas
Como se processa a ética e a responsabilidade dentro das práticas sacerdotais? Vamos discorrer sobre esse assunto profundamente a seguir. Sobretudo, pelo ponto de vista de nossa comunidade religiosa de Ifa, que tem como fundamento o autoconhecimento para a transformação interior. Ao final, conte nos comentários qual o seu ponto de vista sobre esse assunto tão necessário.
Autoconhecimento pela iniciação
Quem tem conhecimento do seu odu de essência possui ferramentas de orientações que permitem melhores decisões e definições sobre como se conduzir conforme a sua natureza. Isso, devido ao autoconhecimento das possibilidades que os odus revelam.
E isso pode ocorrer em sua totalidade na condição de iniciado em Ifa (quando o odu de essência do atual encarne é revelado), bem como, nos jogos de circunstâncias quando um consulente busca um sacerdote de Orunmila, o Babalawo, para orientação dentro de uma necessidade específica de um jogo (consulta) de Ifa.
Os Odus de Ifa
Possuem itans (caminhos, histórias) que nas suas liturgias mitológicas são processadas as ritualísticas. Ou seja, do mito efetivamos o rito.
São polarizados, definindo caminhos e possibilidades positivas e negativas dentro das suas essências as quais devemos potencializar ou evitar, segundo os nossos trajetos de vidas, entendimentos e aceitações.
Não são as pessoas, mas as pessoas têm as vibratórias e possibilidades dos odus (caminhos) em suas essências de existências.
Então, odus são trazidos e materializados energeticamente em uma esteira consagrada. Seja por meio do oráculo do opele, por ikin em opon Ifa (tabuleiro), ou até mesmo por obis (e na nossa tradição cubana usamos gomos de coco), por pessoas iniciadas para o sacerdócio e que possuem ashe para esse fim.
Os Babalawos passam por diversas ritualísticas para isso. Inclusive, por cerimônias prévias de Igbodu (local de recolhimento para a feitura sacerdotal de iniciados) antes do recolhimento de 7 dias para as atividades dos ritos de formação para o sacerdócio.
Podemos concluir, então, que quem opera com os odus de Ifa precisa ser um sacerdote de Orunmila, um Babalawo.
Isso é, com as vibratórias dos 256 odus dentro de si. Pois, as mesmas, permitem materializar energicamente odus para os processos de revelação contidos nos caminhos pertinentes a eles, quando dos jogos realizados por e com essa competência.
De outra forma, ou feitos jogos por outros fora dessa condição, não consigo perceber fazer vir a energia de odu do Orun que possa gerar uma definição especifica de revelação acertada de essência ou de circunstância necessitada. O que pode haver é meramente a marcação do código binário de um odu sem a sua devida assertiva energética precisada.
Enfatizo isso, pois vemos muitos que nada possuem de ashe sacerdotal de Ifa e que se intitulam ou julgam habilitados para baixar e discorrer sobre os 256 odus sem ter o mínimo preparo sacerdotal para tanto. E, se arvoram como orientadores intérpretes de Odu Ifa.
Para tal, precisamos ter o conteúdo energético dentro de nós pela feitura de Orunmila/Ifa.
Pois, assim não sendo, aquele que se senta em uma esteira para jogar não passa de “um livro sem conteúdo”. E, de fato, existem pessoas assim, exploradores da fé sem ética alguma. Esses, com suas ganâncias pelo dinheiro e vaidades, prejudicam os necessitados que se entregam com a inocência do desconhecimento de Ifa, buscando os ajustes dos problemas e aflições.
Contudo, quem não possui o ashe sacerdotal específico da iniciação de Ifa não tem as energias dos 256 odus dentro de si.
E, portanto, não contém internalizadas as vibratórias necessárias para entender os odus e seus caminhos. Bem como, as suas variantes totais das combinações individualizadas em suas quantidades de constituição. E, quem não possui esse ashe total, o qual não “propicia o dom de entender”, que tipo de interpretação pode dar a quem busca orientação?
Caminhos de odus para que sejam interpretados precisam ser entendidos antes.
Os sacerdotes de Ifa passaram por juramentos iniciáticos profundos e atos litúrgicos em razão das cerimônias cumpridas. E esse compromisso precisa ser considerado com respeito, é uma questão de formação sacerdotal. O que, nesse caso, não ocorre com aqueles que não possuem esse comprometimento por não terem passado pela condição e vulgarizam o culto de Ifa como se fosse uma simples atividade de “adivinhação interpretativa”.
Ifa não é isso!
Ifa não é adivinhação, e sim REVELAÇÃO
E essa somente ocorre com o conteúdo da energia absorvida e que vibra na frequência dos 256 odus incluídos no interior do sacerdote quando da feitura sacerdotal pertinente.
A capacidade e competência de revelar vem daquele que passou por cerimônias específicas e absorveu o ashe de poder e saber expressar os entendimentos e fundamentos das essências dos Odus Ifa em sua totalidade.
O que, sem sombra de dúvidas, requer muita dedicação e estudos e, sobretudo, iniciação específica como Babalawo (pai que cobre o segredo). Fora isso, são simples leitores de tratados curiosamente comprados ou obtidos por internet ou outros meios e duvidosamente interpretados por supostos conhecedores.
Aquele que não possui o ashe total dos 256 odus de Ifa, apenas pode perceber e interpretar com a sua própria natureza de odu individual, conforme o entendimento da sua individual essência. E não com os entendimentos das naturezas individualizadas dos 256 odus que um legítimo sacerdote de Ifa possui face às cerimônias passadas e cumpridas liturgicamente para tanto.
Um sacerdote Babalawo de Ifa tem juramentos para não quebrar os secretos da iniciação.
Dessa forma, percebo como fora dos princípios da ética de Ifa aqueles que fazem e ganham dinheiro com cursinhos de Odus para os não sacerdotes. Esses que assim procedem fogem honrar aos seus votos sacerdotais e passam informações que quebram o código do hermetismo religioso de Ifa para o qual tem compromisso juramentado. O nosso culto é de iniciação, e assim devemos proceder. Honrando, assim, os nossos votos sacerdotais com Orunmila, preservando e resguardando os conhecimentos, preceitos e fundamentos de Ifa, sem expô-los com vãos fins lucrativos.
Fazendo um paralelo dessa questão da ética em Ifa com outras práticas religiosas
Ilustrando o entendimento, por exemplo, na Umbanda da raiz do Brasil. Podemos perceber pessoas que quebram princípios da ética também de forma aproveitadora.
Ora, o oráculo da Umbanda é e tem que ser o guia.
Pois, o guia que não consegue ver o problema do consulente ou não é um guia incorporado e sim um espírito de baixa vibratória que a casa não conseguiu identificar. Ou, é o próprio médium quem anima em seu mental uma personalidade inexistente como espírito guia. Criando, com isso, um modelo anímico de suposta incorporação com o seu código de informações contidos no subconsciente. Ou, ainda, é um médium farsante, desprovido de ética, que nada incorpora e apenas finge com a intenção consciente de impressionar e controlar inocentes fiéis.
Sem tecer muitas críticas, é difícil aceitar pessoas na Umbanda que utilizam do oráculo de búzios sem o mínimo preparo para operá-lo. Isso, pois, não passaram pelas ritualísticas próprias para manipular um oráculo que requer processos iniciáticos de feitura de Orisha. Bem como, os seus complementos energéticos necessários durante os anos de iniciação, que se finalizam apenas no sétimo ano com as obrigações pertinentes ao fechamento do ciclo de feitura (DEKA).
Isso precisa ser melhor observado para que a prática do culto seja realizada pelos guias com suas respectivas performances. Isto é, com práticas “oraculares” pertinentes e próprias de uma autêntica atividade umbandista, sem a mistura do uso dos búzios.
Essa peculiaridade de fundamento é de um oráculo de raiz africana, os búzios. Este oráculo expressa um jogo com 16 odus contendo caminhos da sua origem africana. E, mesmo com a adaptação e reafricanização do culto de Orishas no Brasil, acredito que atropelos para o uso do oráculo de búzios, quebrando fundamentos de iniciação para o seu uso, não permeiam a eficácia do sistema oracular.
As adaptações e dinâmicas de evolução podem ter aceitação, mas os fundamentos precisam ser conservados e respeitados. São aspectos ancestrais que precisam ter preservação.
Temos ainda aqueles adivinhos da incorporação do nada, enganadores e exploradores da simplória fé alheia. Esses, os quais faltam ética, fingem manifestações imitando as características dos arquétipos e modelos dos guias. E com isso, realizam a passagem de mensagens ou falas do seu interesse na intenção de controlar e dominar pessoas segundo suas vontades e desejos.
Por fim, ainda existem aqueles “adivinhos” do copo de cerveja.
Aqueles que quando ingerem umas e outras se tornam um “oráculo vivo”. Assim, passam a adivinhar a vida de todos que os rodeiam sem ao menos acertar uma previsão ou identificar uma questão relevante. Esses, são os que sempre ridiculamente se expõem e são objetos de comentários e risos. Pois, basta uma reuniãozinha, uma festinha, uma pequena comemoração que os “oráculos vivos” se manifestam com seus copinhos na mão.
E o incrível é que tem gente que ainda acredita nessa fantasia criada pela ingestão das bebidas.
Esses vivos “oráculos do copo” apenas fazem repetir, como “papagaios da adivinhação”, o que já sabem sobre as pessoas ou que conversaram antes com elas. E alguns, em sua inocência da fé cega, por sempre estarem abertos para acreditar, se deixam conduzir e se admiram com o grande “intérprete da adivinhação dos produtos do álcool”.
Tristes constatações.
Contudo, sejamos otimistas. Tenhamos ética e responsabilidade em nossas práticas, busquemos excelência, e tentemos passar os esclarecimentos para as independências do pensar e agir conforme as nossas essências existenciais. Visto que, esse é o princípio da natureza objetiva do culto a Orunmila/Ifa.
Vida que segue.
Wladimir Bittencourt
Babalawo de Orunmila Otura Tiyu

